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“Ugly Fashion” Não é Uma Tendência Passageira
Por Ana Maria Barth
16 de Fevereiro de 2018

“Ugly Fashion” Não é Uma Tendência Passageira

Parece que esse ano atingimos o nível máximo do “feio”. Balenciaga não consegue manter seu modelo de tênis Triple S em estoque e os “favoritos dos papais”, como bonés de baseball e Birkenstocks (sem falar no comeback triunfante das pochetes, item mais vendido pelo Ebay em 2017, como já falamos aqui), se tornaram peças recorrentes no street style das estrelas ditadoras de tendência do Instagram. Com o crescimento – por vezes irônico – dessas #trends apresentadas por marcas como a Vetements e Gucci, para muitas mulheres hoje em dia é cool ser uncool.

Mas na raiz dessa onda do “feio” está algo muito maior: finalmente, as mulheres estão escolhendo em primeiro lugar pela praticidade. Calçados com amortecedor, roupas largas com pegada streetwear e moletons esportivos – tudo aponta para a preferência pelo conforto, que se danem as curvas! Estar apta a passar os dias indo de uma reunião para outra usando tênis e não saltos significa que a  moda, em especial a alta moda, não está mais associada com esse custo – o custo da dor. Em um tempo em que passamos o dia sendo bombardeadas com notícias e acontecimentos que nos deixam desconfortáveis, o que vestimos não precisa ser mais um deles.

Podemos observar a atual popularidade de calçados como Uggs, Birkenstocks e Crocs como prova do crescimento dessa tendência e do poder de sua permanência. Estudos mostram que cada uma dessas marcas vem de uma temporada mais lucrativa que a outra – apesar de um simples, porém valoroso, detalhe: nenhum desses sapatos pode ser descrito como particularmente delicado ou bonito.

Christopher Kane x Crocs Primavera/Verão 2017

O fenômeno da ugly fashion/moda do feio já foi abordado por algumas estudiosas da moda, como Daniela Calanca, em seu livro “História Social da Moda”, onde desenvolve o conceito de antimoda. Segundo ela, no mundo pós-moderno, onde a fragmentação da moda reflete a fragmentação cultural do período em que vivemos, “o elemento central da antimoda consiste na referência a ideais, valores e concepções da existência radicalmente opostos aos padrões vigentes”. Adeus aos valores que podem ser considerados iluministas, onde o que importa é o Belo e o Bom Gosto!

Outro conceito que vai em consonância à essa ideia é o da “morte da moda”, elaborado por Susana Saulquin em sua obra “La Muerte de la Moda, el Día Después”. Para Susana, os códigos de vestir, que sempre foram pautados pela moda, estão se redefinindo em razão das novas formas de relações sociais propostas pela tecnologia, principalmente. O crescimento acelerado das redes sociais está impondo uma maneira diferente de estar e perceber o mundo, configurando um novo imaginário. Isso significa que a moda como imposição social (do tipo: “se você usar isso estará fora de moda, se usar isso estará na moda”) está com seus dias contatos, sendo substituída por múltiplas modas – recuperando então a possibilidade de cada um construir sua imagem, livre de qualquer julgamento.

Quantos de seus amigos e familiares já afirmaram que aquele Crocs de valor estético duvidoso é, sem dúvida, o calçado mais confortável que já usou? Inclusive, para o espanto de todos: que foi um item que mudou suas percepções sobre o que é o conforto, de fato? “Não tenho vontade de usar outra coisa” ou “não consigo tirar do pé”. Enquanto cada um de nós tem sua própria definição do espectro de “usável” no que diz respeito à ugly fashion, não há como negar que o nível de conforto oferecido por esses sapatos alvos de troça ganhou um lugar no coração de muitas mulheres.

Impossível não estar ciente o Crocs é conhecido mundialmente como feio e cafona – mas quem se importaria com isso, sabendo que pode passar o dia com mais conforto, sem bolhas no pé, sem dores? Essa sempre foi a lógica de consumo da grande massa mas, ao que tudo indica, também é a nova forma de pensar do consumidor que tem acesso à informação qualificada de moda.

O pêndulo da moda vai continuar seu movimento de vai e vem e, talvez em algum futuro não tão distante, tomar emprestado referências de estilo do seu pai não seja mais interessante ou “cool”, mas a expectativa é que o abraço da moda com o conforto se prolongue. Em um momento político, social e econômico onde as mulheres estão ganhando cada dia mais voz para se protegerem e lutarem por seus direitos, escolher peças de roupa mais confortáveis e o autocuidado acima de tudo vão diretamente na mesma direção.

Fonte: Who What Wear

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Ana Maria Barth

Sobre a autora

Ana Maria Barth
Bacharela em História, sempre direcionou seus estudos para a área das artes – e qual é a manifestação artística mais corriqueira e democrática que o vestir? Hoje estuda Design de Moda e trabalha com produção de conteúdo para redes sociais n’A Imaculada e Portal Fashion RS. Adepta do famigerado “lookinho do dia”, Ana ama explorar as inúmeras possibilidades que não ter um estilo definido proporciona.

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