Fashion RS

Anna Dello Russo Está Vendendo Parte do seu Acervo. Por quê?
Por Ana Maria Barth
17 de Janeiro de 2018

Anna Dello Russo Está Vendendo Parte do seu Acervo. Por quê?

“As roupas são feitas para contar uma história. Meu acervo é meu alfabeto fashion. Agora eu quero passar ele adiante para uma nova geração”.

É isso. Enquanto algumas pessoas tem araras, outras armários, outras closets – Anna Dello Russo tem um ACERVO. A stylist e editora da Vogue Japão está vendendo quase tudo do seu famoso acervo fashion pessoal que compilou durante um período de 30 anos – e está vendendo barato!

Anna, uma das mais obsessivas do universo da moda, está esvaziando seu closet, o apartamento extra e seu depósito subterrâneo – imóveis que possui só para abrigar suas roupas. E não está fazendo isso pelo dinheiro. “Não é para lucrar! Eu não quero dinheiro disso – é sobre passar adiante meu legado”, diz a editora.

Em 24 de fevereiro, na noite de abertura do Milan Fashion Week, parte das araras da italiana será vendida em um leilão de 30 looks que já foram vistos em galerias de streetstyle. Veja bem: LOOKS, não peças. ~ The full look ~

A iniciativa, cujos lucros serão doados para o fundo Swarovski e beneficiará estudantes de moda da Central Saint Martins, precede o lançamento do seu livro AdR Book: Beyond Fashion, que conta a trajetória da sua carreira até os dias atuais e contém trechos de seus super atualizados diários e também páginas dos “pink notebooks”, cadernos que organiza compulsivamente onde relata todos os desfiles que já frequentou na vida.

Logo depois desse evento, cerca de 150 peças serão vendidas online via Net-a-Porter. Além disso, Anna também fará vendas privadas para amigos e outras pessoas que admira. Incontáveis bolsas, sapatos e originais ready-to-wear (todos usados uma ou duas vezes) foram desenterrados de seu closet e serão vendidos por um preço simbólico ou até doados.

Mas ela assegura que os looks icônicos estarão à venda no leilão da Christie’s. Anna diz que são “os melhores de todos. As peças importantes. As roupas só são importantes quando falam sobre o moderno de alguma forma, como peças de arte e design”.

Dello Russo afirma que o leilão será como uma galeria fashion. “Quero envolver os jovens, quero mostrar para eles o que é Nicolas Ghesquièrre para Balenciaga e que isso era tudo. (…) O look completo de Giorgio Armani de 1988 que usei para o casamento da minha irmã: sapatos, camisa, lingerie, tudo. Eu acho que meu acervo de Dolce & Gabbana é maior que o de Domenico e Stefano, inclusive. Muitas das peças da marca eu não posso me desfazer – eu vou guardar para mim – mas algumas delas, algumas das mais lindas, eu coloquei para o leilão.”

Outros looks completos incluem Raf Simons para Jil Sander, Burberry, Jean-Paul Gaultier, Balmain, Margiela, Roberto Cavalli, Lanvin, Roksanda Ilincic, McQueen, Tom Ford para Gucci, e Riccardo Tisci para Givenchy.

Mas, voltando para o questionamento inicial: Anna investiu tempo e dinheiro adquirindo as peças para montar seu acervo gigantesco. Ela ama muito suas roupas. Por que está se desfazendo delas agora?

“Eu odeio nostalgia na moda. Quero ser parte do novo. Agora tudo está mudando e eu também tenho que mudar. Apesar de ter muitas peças incríveis para usar – é claro que eu tenho, e muitas delas são Dolce & Gabbana, com certeza – eu não me sinto mais viciada como eu era sobre usar grandes e importantes marcas. E só usar a roupa uma vez. No ultimo Fashion Week em Setembro eu usei a mesma peça três vezes!”

Atenção para o trecho do livro que ela inseriu como legenda nessa foto publicada no Instagram:

https://www.instagram.com/p/Bd129f1BNX0/?taken-by=anna_dello_russo

Estamos vivendo um momento de tomadas de consciência (sim, no plural) que não são só sobre a moda, são sobre o mundo. Todos já sabemos sobre os impactos da indústria do vestuário no meio ambiente, na economia e principalmente na sociedade. Sobre as novas formas de se pensar a moda já existem livros teóricos, como O Império do Efêmero de Gilles Lipovetsky, outros que colocam a teoria pra jogo, como Moda com Propósito, de André Carvalhal, e documentários, como The True Cost, que deu um tapa tão forte na nossa cara que impulsionou o surgimento do movimento Fashion Revolution no mundo inteiro. Não repetir uma peça de roupa vai na direção totalmente oposta a esse pensamento inaugurado pelas novas formas de consumir (além de ser uma atitude completamente cafona e ultrapassada, né?).

Cena do documentário “The True Cost”, de 2015

Anna continua sua reflexão, e diz que “outra razão é que preciso que essas peças vão para um lugar onde serão apreciadas. Tenho me sentido pesada tendo tanto. E acho que quando se envelhece você volta a se sentir como uma adolescente – chega de maquiagem, chega de peles, quero me sentir leve”.

A atitude de Anna não é novidade. Quantas pessoas não estão se desfazendo de partes significativas de seus estoques de roupa nos últimos tempos? (Estoques, porque não usamos uma grande porcentagem do que temos). Resultado do fenômeno do desapego pode ser visto claramente aqui em Porto Alegre, por exemplo: é só observarmos pra quantas feirinhas de brechó e bricks somos convidados semanalmente pelo Facebook.

É fato que ações que pretendem “ficar mais leve” e “viver com menos” com certeza fazem parte das previsões das empresas que elaboram as megatendências de comportamento para esses próximos anos. Ver uma celebridade do universo da moda – que sempre foi símbolo do luxo, exuberância e dispêndio – aderindo a essa forma de pensar é um sinal dos novos tempos e prova cabal que o slow fashion não é uma tendência passageira.

Fonte: Vogue USA

Curtiu? Compartilhe:

Ana Maria Barth

Sobre a autora

Ana Maria Barth
Bacharela em História, sempre direcionou seus estudos para a área das artes – e qual é a manifestação artística mais corriqueira e democrática que o vestir? Hoje estuda Design de Moda e trabalha com produção de conteúdo para redes sociais n’A Imaculada e Portal Fashion RS. Adepta do famigerado “lookinho do dia”, Ana ama explorar as inúmeras possibilidades que não ter um estilo definido proporciona.