Querido empresário, não leve a mal, aqui no portal costumamos sempre encorajar empreendedores e novos negócios, afinal todo mundo tem um sonho e merece a chance de realizá-lo. Mas propomos uma reflexão com intuito de desafiá-lo a inovar e sair do lugar comum, e não desestimulá-lo: Qual será o impacto que a sua empresa causará no mundo? Será positivo, ambientalmente e economicamente falando?

Qualquer negócio e empresa vai impactar o mundo em que vivemos, na economia, gerando empregos, impulsionando o mercado local, e ambientalmente uma vez que a indústria têxtil é a segunda mais poluente no mundo! E se vai impactar o mundo que eu e você habitamos, nos sentimos na obrigação de levantar algumas questões:

Ser diferente e ser bom
Em praticamente toda a palestra/curso/workshop que já fui a seguinte máxima foi repetida exaustivamente: para fazer sucesso você precisa ser diferente. Se destacar diante de tantos concorrentes é uma ideia tão óbvia quanto velha, mas realmente é isso que vai te garantir sucesso?
No Brasil, não é preciso ser especialista para descobrir que os consumidores estão constantemente insatisfeitos com a qualidade do atendimento prestados nas lojas online e físicas, várias pesquisas já mostraram o grau de insatisfação do público. Então porque não se preocupar com a qualidade do seu atendimento e pós venda?

Empresas que investem nisso vem se destacando. O Nubank não oferece nenhum grande serviço diferenciado, ele oferece cartões de crédito sem taxas de anuidade e com taxas mais baixas de juros – vários bancos também oferecem isso, mas porque ele faz tanto sucesso (o cartão de crédito tem lista de espera) se ele não oferece nenhuma inovação? Simples: ele é eficiente.

Quem tem um sabe, o atendimento é impecável, prático, você consegue falar com o SAC e resolver seu problema através do aplicativo em questão de segundos. Atendimento bom não é um diferencial – é o básico que as empresas deveriam oferecer. Um aplicativo intuitivo, fácil e com foco na experiência do usuário também não é diferencial, afinal essas premissas estão sempre presentes em projetos e briefings, mas poucos conseguem colocá-las em prática com tanto êxito.

O que pretendo mostrar é que na maioria das vezes é mais importante você se preocupar com a qualidade do que se importar tanto em ser diferente. Tanto seu produto quanto seu atendimento precisam ser bons, muito bons, para a partir dai buscar seu diferencial.

Pensando nisso pergunto: O seu atendimento é impecável? Seu produto é bom? Excelente? Se sim, sua marca realmente possui um diferencial? As roupas que você vende não serão encontradas em outras lojas?

Em um shopping que possui mais de 300 lojas, em um momento que todas as lojas vendem as mesmas estampas, e praticamente as mesmas peças com os mais variados preços, existe alguma peça que só será encontrada em sua loja? O cliente ao entrar na sua loja será atendido por um especialista no seu produto? Um profissional que entende as últimas novidades do seu universo? Se a resposta para essas perguntas for não, é possível que você deva reavaliar seu produto e atendimento.

Posicionamento x realidade
Mesmo assim sua marca tem um posicionamento incrível e atual, um discurso bem escrito, uma comunicação bonita… Então perguntamos: como esse discurso e posicionamento se aplica na prática? Ele se reflete nas atitudes dos seus funcionários e fornecedores? É levado em consideração na contratação dos colaboradores?

O posicionamento é de empoderamento feminino, mas a marca só comunica usando mulheres de padrão eurocêntrico, e só trabalha com uma grade de tamanhos reduzida? O discurso é de sustentabilidade mas a cada coleção quilos de resíduos de tecidos são desperdiçados? O discurso é genderless mas a loja ainda divide setores e provadores por gênero e a numeração é restritiva? Se na prática o seu discurso não se sustenta, não se iluda, seu consumidor vai perceber e em breve vai cobrar isso de você.

Ética e responsabilidade social
Discurso e prática tem que andar juntos, mesmo que seus produtos sejam realmente diferentes e bonitos. Se seus fornecedores não valorizam a mão obra cobrando preços absurdamente baixos, ou pior, você nem sabe a procedência das suas peças, todo aquele posicionamento lindo de empoderamento feminino e sustentabilidade que você criou é apenas discurso vazio. 85% dos trabalhadores da indústria têxtil são mulheres e boa parte delas são exploradas por essa industria, é preciso ter responsabilidade social ao criar um negócio novo e buscar trabalhar com empresas e indústrias que também pensem assim, do contrário você estará apenas enganando seus clientes.

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Se você criou uma marca nova – mas baseada em um modelo antigo de fazer negócio, despreocupado com essas questões, o mundo não precisa da sua empresa e de produtos iguais aos milhares que já existem, destes, nosso planeta já esta farto. Precisamos sim de iniciativas que utilizem o recycle como premissa, que fomentem a economia local e que valorizem as trabalhadoras da indústria.

Precisamos de iniciativas que enalteçam as diferenças e sirvam para melhorar a relação de nós mulheres com a nossa própria imagem. Precisamos nos sentir representadas pela sua marca e não oprimidas.

O novo mundo já começou
Gigantes do varejo já estão começando a sentir na pele essa postura do público e repensando aos poucos suas atitudes. A H&M criou uma coleção produzida a partir de matérias primas orgânicas e algodão reciclado e em 2014 divulgou um Report  (ainda que criticado) no qual assume um compromisso com ações que visam diminuir o impacto causado por sua própria produção . A Renner lançou sua linha curve size com tamanhos até 54 importante passo para o mercado brasileiro que não é nenhum pouco preocupado com esse público. E até grifes como Louis Vuitton – que contratou Jaden Smith para sua campanha sem gênero. E Giorgio Armani que anunciou que não irá mais utilizar peles de animais em suas coleções. Esses são apenas alguns exemplos que apareceram nos últimos dias, há muito mais por ai.

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Algumas tentativas de outras marcas foram um pouco desastrosas, por serem apenas ações de marketing sem respaldo na prática, como a Zara com sua coleção genderless e a campanha da C&A, por exemplo. Ambas foram duramente criticadas pelo público e mídia especializada, pelos motivos citados acima: um discurso incrível e atual, porém superficial e que não se sustentou na prática. Fica a lição – não tente subestimar seu público.

O mercado já tem muitos bons exemplos como: Insecta Shoes, Basico.com, Catarina Mina, Patagonia e tantas outras. E iniciativas como o Prêmio Ecoera no Brasil que busca valorizar marcas preocupadas com a sustentabilidade e a organização Fashion Revolution que questiona quem são os trabalhadores por trás das nossas roupas.

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Não há mais como ignorar esse cenário, essas mudanças já estão acontecendo, e se você está começando agora possui uma vantagem: a sua marca já nasce com essa nova maneira de fazer negócio. Então aproveite para se destacar e ajudar a construir esse mundo mais justo, consciente e sem preconceitos que todos queremos habitar, porque precisamos sim de iniciativas novas.

Para ver: The True Cost
Documentário disponível no Netflix que mostra o que mencionamos acima: o impacto do nosso consumo de roupas no mundo e na vida de milhares de pessoas.

Para seguir: Fashion Revolution
A iniciativa tem um braço no Brasil e na página deles é possível ficar por dentro de mais informações, noticias e atividades no pais.

Para produzir: Banco de Tecido
Se voce quer tornar sua marca mais sustentável que tal utilizar tecidos reciclados ou descartados de outras empresas? Já apresentamos aqui a iniciativa do Banco de Tecido.

Para ler: Nossa entrevista com Chiara Gadaleta, uma referência no assunto,  está cheia de dicas para quem está começando.

Conhece alguma iniciativa bacana como as citadas acima? Envie para nós pelos comentários aqui embaixo!