O escritor e filósofo Slavoj Zizek utiliza o termo “capitalismo cultural” para se referir ao novo tipo de consumo, argumentando que hoje não se compra mais basicamente um produto, mas sim uma ideia vinculada a todo um contexto social, e obviamente isso vem carregado de ideologias, que segundo ele, só impulsionam ainda mais o modelo capitalista. Segundo Zizek, em um exemplo meio esdrúxulo, quando se compra um café da Starbucks, se compra além de um café, um modo de vida e, além disso a garantia de que está se bebendo um líquido – digamos – justo, que até onde se saiba, não matou ninguém na sua produção.

Ok, ok, sem manifestações comunistas dirão alguns (afe). No entanto essa uma ideia interessante para se pensar em alguns caminhos que a moda está tomando, naquela vibe – consciência e sabedoria custam caríssimo, mas dão uma paz de espirito divina.

E, não por acaso, semana passada a Cèline apresentou sua campanha com nada mais nada menos que a escritora Joan Didion como grande top model da estação. Na campanha a super cool Joan aparece sentada em seu apartamento no Upper East Side em Nova Iorque, usando uma blusa preta, um colar e um super óculos da marca, fotografada pelas lentes do também super cool das antigas Juergen Teller.

Joan-Didion_2015_Celine-campaign

Bom, tanto a Celine, quanto a Joan Didion dispensam comentários. A marca é absurdamente amada, copiada, antenada e representativa no mundo das modas de hoje, suas bolsas são desejo absoluto de quem pode pagar em média 4 mil reais por uma delas, suas roupas são usadas por celebridades e rycas verdadeiras e suas estampas e modelagens são copiadas por quase todas as marcas: basta olhar os últimos desfiles, onde tudo se parece meio Celine. Para finalizar, suas campanhas são sempre invejavelmente o retrato da geração cool. Inclusive, a ultima campanha da Celine já “reconstruía” uma foto da escritora nos anos 60, só que com a modelo da estação Daria.

joan-didion-celine-inspiration (1)

screen-shot-2015-01-11-at-10-42-27

Já a Joan Didion é mulher forte, que representou e lutou pela sua geração, é ícone de estilo e de inteligência inquestionável. Começou nos anos 50 como colaboradora da Vogue, escreveu uma porção de livros memoráveis, como o Álbum Branco 1979, que foi considerado um relato da sociedade californiana da década de 70. Lutou por causas gay e feministas e foi considerada com Tom Wolfe, Gay Talese e outros umas das representantes do novo jornalismo.

Joan imprimiu critica e análise social a uma geração que precisava disso mais do que ninguém. Misturou moda com política e sociedade, e sempre apresentou sua opinião forte em tudo que publicava. Obama a mencionou certa vez – quando a autora ganhou o prêmio National Book Award – como uma das vozes mais influentes e uma das escritoras mais celebradas da sua geração.

Perdeu o marido e a filha em um período de um ano e oito meses e se apoiou a escrita como subterfúgio a sobrevivência, quando lançou seu dois últimos livros, um dedicado ao marido (O ano do pensamento mágico) e outro a filha (Noites Azuis). Enfim, sua relevância para o mundo e, consequentemente, para a moda é quase cósmica.

Por isso, todo mundo enlouqueceu com a foto divulgada na terça-feira, dia 06 de janeiro, pós ressaca de ano novo. A Vogue disse que foi a coisa mais importante desde a Jenna Lyons no Girls e o NYTimes que foi a coisa mais importante desde a Kim Kardashian para a Paper. Importâncias a parte, o interessante de se notar nesse caso é como a moda vem – mais do que nunca – se apropriando do universo intelectual para alimentar o consumo. E de como simbolicamente o capitalismo cultural está se utilizando dessa super valorização ao intelecto para vender roupas.

Todo mundo conhece tudo e todo mundo usa tudo de todas as marcas: seja original ou fast fashion; os ricos verdadeiros não ostentam mais marcas (a maior mentira já contada), mas ostentam inteligência (a maior mentira já contada 2) e o poder simbólico disso vende águas para uma galera esperta da hora, numa vibe bem Marie Claire: Chique é ser inteligente! Basta pegar outros exemplos rápidos, como o Hedi Slimane e sua exposição do Sonic Youth para a Saint Laurent ou a Patti Smith para a Ann Demeulemeester, entre outros.

PBDJODI CS002

Se isso é bom ou ruim. Não sei. Pode ser ótimo (oremos). Pode não ser. Mas essa não é a questão. A questão é parar para pensar.

Claro que você também pode se jogar na nova coleção da Celine em breve nas lojas para exclusivos. Seja verdadeira, seja fast fashion, pregando um “fashion brainy” do momento.

Ou você pode parar para analisar o poder simbólico que certas personalidades e marcas tem para alimentar aquilo que o Slavoj Zizek chamou de capitalismo cultural. Que isso já fez todos nós chorarmos no cantinho de desejo por uma peça, que não é só uma peça, mas o que ela representa para o nosso self de estilo. E tá aí a lindeza de toda essa simbologia que a moda traz junto com casacos e vestidinhos da temporada. Basta olhar com atenção e se jogar na promoção.

Um 2015 lindo de muito aprendizado, muitas leituras e boas comprinhas, porque ninguém é de ferro.

assinatura 1