Produção: HUB CONTEÚDO – ESPM/Sul – Porto Alegre, RS
Redação e Fotos: Jannine Portugal
Coordenação e Edição: Profa. Daniela Aline Hinerasky
Oferta diversificada e modelos originais são encontrados nos brechós da capital. Foto: Jannine Portugal

Oferta diversificada e modelos originais são encontrados nos brechós da capital. Foto: Jannine Portugal

A escolha por brechós na hora das compras vem aumentando nos últimos anos e um dos motivos é que as pessoas estão procurando peças de roupas exclusivas e por um preço justo. “O bom de comprar em brechós é que eles trazem modelos únicos, diferentes das peças encontradas em lojas comuns, sem falar da qualidade das peças. As peças antigas são mais resistentes que as atuais”,  explica a consultora de moda Caroline Braga Domingues, 31 anos.

 A aluna de Engenharia Civil da UFRGS, Yasmin Boeira, 19 anos, que realizou a primeira compra em um  brechó no Bairro Moinhos de Vento, na capital, ficou satisfeita. “Foi minha primeira vez, comprei um tênis, gostei bastante pois dá para achar coisas boas por um preço mais acessível. Com certeza, pretendo voltar”.

Comprar em brechós também faz parte de um movimento de consumo sustentável e do fim do acúmulo de roupas. Segundo a proprietária do Brechó “Nossa Senhora das Maravilhas”, Angela Rolim, as pessoas estão começando cada vez mais a se conscientizar sobre isso.

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Nossa Senhora das Maravilhas é um local limpo e organizado, com produtos diferenciados e preços que cabem no orçamento. Foto: Jannine Portugal

Mas para o consumo consciente, não basta apenas ir aos brechós e comprar várias peças, apenas porque elas são baratas e tem estilo, declara a pesquisadora Carolina Souza. “É preciso comprar com consciência, escolhendo a peça já pensando no que tem no guarda-roupa, onde vai usar. Eu tento comprar as peças que de fato vão ter um futuro no meu armário. Isso é importante tanto quando se compra em brechós ou em lojas de fast fashion”, explica.

Apesar de a popularidade dos brechós estar crescendo, ainda existe muito preconceito em relação aos produtos ofertados e a quem os consome. “A maioria acha que só existe um tipo de brechó e que eles vendem apenas roupas muito velhas, que não podem ser reutilizadas ou que já pertenceram a pessoas mortas”, enfatiza Angela.

“Oferecemos um espaço único, fugindo da ideia pré-concebida brasileira de que brechós são sujos, bagunçados e com peças de má qualidade. Em 2008, quando o Casa da Traça surgiu, existiam  poucos espaços  que tinham diferenciais e conceitos bacanas, e eu como consumidora sentia falta disso explica a proprietária do brechó, Babi Andrade.”

O colorido brechó Casa da Traça possui pacote completo quando se trata de moda vintage: chapéus, bijoux, roupas e calçados. Foto: Jannine Portugal

O colorido brechó Casa da Traça possui pacote completo quando se trata de moda vintage: chapéus, bijoux, roupas e calçados. Foto: Jannine Portugal

Muito mais do que roupa usada

Existem diferentes tipos de brechós, desde os mais simples, que vendem apenas roupas usadas ou aqueles que vendem roupas seminovas e novas, até os mais conhecidos, que oferecem roupas de décadas passadas, chamadas “vintage” ou “retrô”. Há ainda os tipo boutiques de luxo, onde se pode encontrar peças e acessórios de marcas famosas, como Chanel e Louis Vuitton.

Aqui no Rio Grande do Sul há uma variedade de brechós de todos os segmentos citados (Tag Lux, Maria Sem Vergonha, “Nossa Senhora das Maravilhas“, Deauville Vintage, o infantil Passa Passará, Las Galas Brechó, e o Mostarda Brechó) até os mistos, como o “Casa da Traça” que fica na Av. Independência, em Porto Alegre, e oferece além de opções retrô, peças novas de moda alternativa com uma pegada urbana, como jardineiras, jeans, shorts de cintura alta, cropped’s 90’s, camisetas de banda, camisas estampadas. Os preços variam entre 50 até 150 reais.

Os brechós-outlet também são bastante conhecidos entre as mulheres gaúchas por conter além de boas peças usadas, outras novas, de coleções antigas ou de lojas que acabaram fechando suas portas. É o caso do “Nossa Senhora das Maravilhas”, localizado no Moinhos de Vento. “O preço fica compatível ao das peças usadas”, explica a proprietária Angela Rolim.

Tem ainda o o “Brechó da Tia Mariza”, na rua General Lima e Silva 1446,  que trabalha com roupa vintage dos anos 60,70 e 80; e  o “Me Gusta Brechó”, com produtos seminovos. “Chegam muitas peças novas, ainda com etiqueta”, comenta a vendedora do “Me Gusta Brechó”.  “Temos peças trazidas de fora do país por pessoas que viajaram e não as quiseram mais. Mas 80% dessas peças são seminovas. Possuímos produtos de marca, como Chanel, Louis Vuitton e RayBan”, conta Angela.

Além dessas propostas, também existem as “Garage Sales” (Vendas de Garagem), organizadas por lojas, pessoas ou coletivos, onde participantes trocam ou vendem suas roupas e produtos usados, seminovos e até nunca usados. Esse tipo de evento que ocorre com hora e dia marcado em galpões, pátios ou em frente de garagens, claro, é popular nos EUA, e já em Porto Alegre

Os mais populares na capital  promovidos por iniciativa pessoal de amigas, coletivos ou blog, como o “Mercado Vintage” (uma feira vintage, todos os meses, na Casa de Cultura Mário Quintana), o “Brick de Desapegos“, realizado desde 2012 por Natalia Guasso e Sara Luz, o “Brechó da Troca” (promovido mensalmente por Helena Soares em diferentes locais de Porto Alegre), o “Street Style Poa“.

A publicitária Alana Pereira participa regularmente de um garage sale com outras amigas, em parceria com a marca Insecta Shoes, cuja próxima edição vai ser antes do Natal, no dia 20 (mais informações do Bazar de Natal Insecta + amigas do Besouro).

Segundo ela, a ideia começou com a necessidade de praticar o desapego. “Começamos, basicamente, a partir da percepção de que a gente tinha coisas demais no guarda roupa. Peças nunca usadas, pouco usadas, algumas com etiquetas ainda e o armário atolado e a gente refletindo: por que tanta roupa? Hoje, acho que o ponto de partida tem que ser esse, de tomar consciência de excesso de consumo”, enfatiza Alana.

As meninas sabem que estão experimentando formas de consumo com responsabilidade.  “O garage sale, mesmo com preços super em conta, também gera frenesi de consumo, mas pelo menos já são peças que exigirão um novo ciclo de produção”, finaliza Alana Pereira.

O “Garage Sale 427“, apesar de conhecido pelo nome, não se configura como tal, mas como um brechó misto, já que funciona regularmente (de segunda a sábado, das 10h às 18h) e em lugar fixo (Rua André Puente, 427).

Qualidade e preços variados

Assim como os produtos oferecidos nos brechós são bem diversificados, os preços também são, existem peças desde 15 reais até 590. Segundo a proprietária Angela Rolim, “tem aqueles vestidos casuais que geralmente custam 15 reais, mas também têm aqueles mais estilizados, cujo preço vai de 120 a 390 reais”.

Porém, os preços variam muito. “Tem peças que são de marca aí são mais baratas que as novas, mas ainda assim não são tão acessíveis”, explica Angela Rolim, que já vendeu uma bolsa Chanel rosa pink por 990 reais. “Foi um preço muito ‘dado’ se considerarmos o produto”, esclarece Angela.

Cuidados e escolha de peças nos Brechós

Mesmo com as possibilidades e vantagens, os especialistas sugerem alguns cuidados durante a compra e antes do uso. Devemos garimpar o máximo possível para encontrar produtos que caibam no bolso e no corpo.

A pesquisadora Carolina Souza afirma que uma de suas maiores preocupações na hora de garimpar é acabar levando mais do que se precisa,ter um consumo exacerbado das coisas, especialmente na moda. “Não digo pra comprar apenas peças-chave, mas comprar aquilo que de fato tem a  ver contigo, e que não vai jogar fora um mês depois”.

O estado das peças também deve ser um critério de escolha, explica a consultora Caroline Domingues.”É preciso ter um bom olho e análisar o estado das peças antes de resolver comprá-las, perguntar para o dono ou dona do estabelecimento de qual lugar vieram as peças”. Ela também recomenda lavar as roupas compradas mesmo que isso já tenha sido feito, evitando então o desconforto e as alergias que podem vir de odores, perfumes ou mofo. “É importante checar até as etiquetas, pois pode ser colocada uma etiqueta de marca em cima de uma comum para cobrar pelo produto São vários detalhes”.

Brechós online viram febre

Além dos brechós fisícos, existem dezenas de sites, blogs ou fanpages na internet, onde muitas pessoas propõem se desfazer das roupas e acessórios que não precisam ou não usam mais.  Tem ainda aqueles que possuem que possuem lojas físicas e também online, como o paulista “Minha Avó Tinha” com roupas vintages de marca como Dior e Chanel, além de roupas comuns.

Em sua loja virtual, o Recicla Luxo oferece peças usadas mais atuais (eles não possuem nada vintage), e também de marca, como Gucci, Chanel e Louis Vuitton, com preços entre 250 a mais de 2300 reais. O Enjoiei Brechó é uma espécie de comunidade online, que reúne diversos vendedores e compradores de produtos que não lhes servem mais, vinculados a seus perfis. As peças oferecidas estão em bom estado e com preços razoáveis. Há a vantagem de ser um portal conhecido, mas há uma taxa de venda que fica retida para os administradores do site. “Eu tenho ido menos a brechós, já que tem a possibilidade de encontrar coisas usadas na internet, mesmo. Gosto muito do Enjoei”, finaliza Caroline Domingues.