Na sexta feira dia 21 de novembro como comentamos aqui André Carvalhal lançou seu livro A moda imita a vida,  em evento no Studio Q.  Antes do bate papo e sessão de autógrafos, tivemos a oportunidade de entrevistar o gerente de marketing da FARM e falar um pouco sobre o livro, marketing, e é claro, moda brasileira, confira abaixo:

Foto divulgação

Foto divulgação

Qual característica é fundamental para um bom
profissional na área de marketing?
Eu costumo falar para a minha equipe, que o profissional de marketing precisa se apaixonar por pessoas, gostar de entender o outro. Acredito que entender se uma coleção vai dar certo é entender sobre pessoas. Durante a faculdade ou no trabalho, a gente acaba tendo uma visão voltada para o mercado, observando o que as marcas estão fazendo, o que é tendência e o que está dando certo no mercado, e esquecemos de olhar para as pessoas, que é para quem estamos fazendo tudo isso, que é o cliente. E esse cliente pode nos dar respostas, nos inspirar, e as vezes é quem mais entende da nossa marca. O profissional tem  que se interessar genuinamente pelo outro.

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Qual erro mais comum que você acredita que as marcas que estão
começando cometem?

Nunca é só uma coisa, sempre é uma combinação de vários fatores. Tem uma coisa que eu sempre falo pra meus alunos: é preciso entender o que você vai fazer de diferente. O que vai fazer o consumidor gastar o dinheiro e o tempo com a sua marca. A gente vive em um mercado super saturado, um mesmo produto pode ser encontrado em qualquer lugar. A roupa que a gente usa vende no camelô até a loja mais cara. Por que você vai ser escolhido?
Nesse sentido um erro muito comum é seguir o que já existe, seguir um padrão, que na verdade é o medo de errar. Costumo começar minhas aulas perguntando: Imagina um shopping center e a quantidade de lojas e marcas que estão ali, o que você vai fazer diferente de todas elas? Pra conseguir seu espaço hoje, você precisa valer a pena

O livro já está na segunda edição.

O livro já está na segunda edição.

Como você busca inspiração?
Acho que é muito esclarecedor olhar para infância. No livro eu entrevistei muitas pessoas, e vi que a marca dessas pessoas já existia na infância delas. Oskar ( Metsavaht criador da Osklen) quebrou o patins da irmã para andar de skate e construir o seu, e outra histórias de infância que estão no livro. Quando eu olho pra minha própria vida eu percebo que quando era pequeno eu gostava de brincar de ser professor e fazer festa de aniversário para meus vizinhos. E hoje faço isso, sou professor e organizo eventos. Acho que as coisas já existem dentro da gente. Começo o livro com essa frase: As respostas já existem e estão esperando para serem descobertas.
Acho que temos que mudar o foco e trazer o foco pra dentro. O que inspira é o que tá dentro. Ir a um lugar novo, viajar, fazer essas coisas é bem bacana mas acho que temos que estar o tempo todo confrontando com o que está dentro, pra testar se aquilo vale a pena, se somos aquilo mesmo, se aquilo faz sentido pra você.Quanto mais a gente se conhece, mais a gente sabe quem a gente é, mais acertada passam a ser nossas escolhas. E a mesma coisa acontece com uma marca, as respostas os movimentos, as decisões tem que partir do que a marca é, e não do que o mercado está fazendo.

Que marca você apontaria como um destaque nesse momento do ponto de vista de marketing e de construção de imagem.
Temos marcas grandes como Osklen e Reserva, e se a gente olhar para outras marcas que estão bem sucedidas no mercado, no geral todas estão preocupadas com essa construção. Mas gosto muitos de marcas pequenas como a Cotton Project que eu amo. Você entra na loja e entende a proposta, você vê que ali tem alguma coisa diferente.

Na moda brasileira, sempre existiu essa busca por uma identidade nacional, desde o inicio. A FARM trouxe uma cara brasileira, um lifestyle que conquistou mesmo fora do Rio de Janeiro, você acha que hoje existe essa identidade nacional?
Eu acho que nos enganaram quando falaram que a gente mora num país, a gente mora em muitos países. Porto Alegre é muito diferente do RJ, por questões obvias: clima, geografia, população e etc… E acho que é isso é o que determina a moda, por isso é tão difícil possuir uma unica identidade. Acho que a grande sacada da FARM, é que ela fala de um Brasil que é o RJ, e ele é muito fácil e desejado por todo resto do país. Por exemplo,  a moda do sul é mais difícil de ser levada pro outros estados, pelo clima, matéria prima, modelagem e etc… Mas você pode pegar um vestido da FARM aqui no sul e colocar uma jaqueta de couro por cima e usar no inverno. A moda carioca é fácil e desejada e ela acabou virando um pouco a cara do Brasil por conta disso.
Na verdade acho que não existe uma unica cara pro Brasil, e acho que isso é muito positivo. E é ai que temos a oportunidade de ter nosso diferencial.

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Nesse momento existe uma preocupação muito grande com sustentabilidade e slow fashion. E algumas marcas enfrentam dúvidas como: Preciso vender e crescer mais e preciso  ter novidades toda semana, mas corro o risco de perder o controle da produção ou acabo tendo que me manter com preços altos e a produção menor. O que tu acha desse movimento atual?
Eu percebo esse movimento no mundo, as pessoas passaram a entender que do jeito que tá não dá, quem tá no topo da piramide está mais exigente, e vendo o que está acontecendo no mercado. Mas o mercado é feito por gente grande, as fábricas e as industrias vivem e carregam um histórico e um formato que não sustenta isso, ainda. Essa semana conversei com uma amiga, ela me disse: as minhas filhas que estão no colégio, já nasceram com essa mentalidade, de ser mais social e responsável, então os negócios que essas pessoas construirão no futuro já serão nesse formato e com essa preocupação. Mas hoje a gente vive um choque, se eu quero fazer uma blusa 100% sustentável de um tecido ecologico, ela custa 5 vezes mais do que uma blusa normal, por quê? Porque não existe demanda, não existe preparação. Eu sou bem otimista e acredito que as coisas estão caminhando nesse sentido. As faculdades já tem disciplinas dedicadas a isso, já no colégio isso começa a ser abordado. Acho que os negócios do futuro já serão construídos dessa forma, mas hoje estamos no meio da transição, então é difícil querer ter isso agora de uma hora pra outra.

Público no bate papo. Foto Studio Q

Público no bate papo. Foto Studio Q