No segundo andar do Praia de Belas Shopping, um quiosque de 6m2 com o triângulo símbolo internacional da sustentabilidade chama a atenção dos visitantes. São comercializados ali camisetas, ursinhos, bonecas, bolsas, bonés e outros acessórios, além de tapetes, porta-retratos e almofadas e almofadas. A Ama Terra é uma franquia especializada em produtos de moda, decoração e brinquedos com o menor impacto ambiental possível.

Esta é uma das empresas que trabalham no país em um mercado recente, a chamada ecomoda, eco-fashion ou moda sustentável. Grande parte da população desconhece os processos, atuações e materiais usados nesse setor da moda. “Eco-fashion é o processo de criação de produtos de moda através de uma cadeia de valor sócio responsável que objetiva desempenho presente e cuidado com o futuro”, explica a professora do Curso de Design de Moda da ESPM-Sul, Camila B. Scherer. O conceito está ligado a diversas iniciativas que envolvem a reciclagem, a reutilização e a renovação de matérias-primas e produtos.

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Quiosque da franquia Ama Terra, no Praia de Belas Shopping, atrai curiosidade dos visitantes. Foto: Divulgação: Sortimentos.com

A atuação vai muito além de “pegar uma coisa e transformar em outra”, elucidam as designers Camila Poeta e Vitória Schacht, do SENAC-Canoas, que está participando de uma pesquisa sobre metodologias de empreendedorismo criativo na área da sustentabilidade e da moda. “Não se trata apenas de pegar uma garrafa PET e transformar ela em um colar e isso passará a ser algo sustentável. Pode até ser, mas não é só isso, existem outras alternativas que se encaixam no meio sustentável, além da reciclagem, como os brechós, que fornecem um prazo maior de ‘vida’ para os produtos. Então tem várias concepções de moda sustentável. A gente não trabalha só com lixo, mas também com transformação de peças”, esclareceVitória.

Uma marca de moda sustentável está preocupada com os impactos dos processos produtivos no meio ambiente e faz roupas com fibras ecologicamente produzidas, matérias-primas que não agridam a natureza e retalhos, tecidos reciclados ou descartados por grandes empresas, escolhidos a dedo. Destacam-se as tramas de algodão orgânico e de fibras naturais, como bambu, cânhamo e soja; lã e seda ecológicos. E há outros materiais alternativos, como lonas e couros.

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Mas nao é só isso, os projetos partem da premissa do aumento do ciclo de vida dos produtos, do respeito a leis trabalhistas e até mesmo da garantia de um trabalho cooperativo com as comunidades locais responsáveis pelos materiais. A Ama Terra, por exemplo, trabalha apenas com cooperativas que o Sebrae administra, afirma o proprietário da franquia no Praia de Belas Luís Carlos Silveira. “É uma forma de impedir o trabalho infantil, já que o Sebrae não aceita crianças como funcionárias”, alerta.

Outras iniciativas simples, como a separação correta de lixo em primeira mão, também fazem parte das ações de produção sustentável. A grife de festas Lika Fashion, que transforma retalhos cortados a máquina a laser em verdadeiras obras de arte (pétalas e arabescos) para o bordado, prioriza a coleta seletiva em todos os setores da empresa. “Adquirimos as lixeiras específicas que destinam plásticos, papéis e vidros de maneira correta. Também somos posto de recolhimento de óleo vegetal de cozinha usado, bem como de pilhas e lâmpadas fluorescentes, materiais recolhidos pela prefeitura temporariamente”, destaca a assistente de marketing da empresa de Santa Rosa, Roseméri Schmidt.

O boom da ecomoda

A sustentabilidade começou a ter destaque no Brasil em 2007, quando a marca carioca Osklen resolveu levar para as passarelas da São Paulo Fashion Week o projeto “e-fabrics” (ecologial fabrics ou, em português, tecidos ecológicos). A coleção “Amazon Guardians” apresentou peças feitas de algodão orgânico, látex natural da Amazônia, palha de buriti, couro de peixe e até madeira reciclada, propondo um exército de ativistas da moda, em favor da natureza. Em 1998, a empresa já havia investido em cinco toneladas de algodão orgânico, mas foi a partir da repercussão positiva em 2007, que o diretor de criação da empresa, Oskar Metsavath, passou a trabalhar cada vez mais com esses materiais, tornando a Osklen reconhecida por valorizar os tecidos e fibras originados em processos sustentáveis.

A marca se mantém atuante nessa linha por meio do projeto e-fabrics, vinculado ao Instituto-E.  Além de realizar  experimentos com matérias-primas, a ONG dá suporte às pequenas comunidades de produtores e, também, procura informar e sensibilizar as pessoas e empresas para a responsabilidade de cada um no desenvolvimento do planeta.

Pequenos projetos, negócios de grandeza

Apesar de a trajetória eco-fashion no Brasil ter mais de uma década, o mercado ainda é pequeno. Mas está em crescimento. Prova disso é a aposta de dezenas de empresas de moda e profissionais do país nesse setor, nos últimos anos.

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Além das camisetas, alpargatas e acessórios com matérias-primas ecológicas, a irreverente gaúcha Buda Khe Rhi inova também na arquietetura e decoração das lojas, feitas com canos e garrafas PET. Foto: Bruna Rohleder

É o caso, por exemplo, da Vert Calçados, Será o Benedito (malas, mochilas, cintos e calçados com reaproveitamento de lona de caminhão), Mr Fly, Coletivo Verde e Ekoverde (as três de camisetas ecológicas), We Wood, Zereses, Notiluca (estas últimas, com linhas de óculos especiais com madeira reaproveitada) A Evoke, além da madeira, utiliza plásticos biodegradáveis e bambu na confecção dos óculos.

As lojas de varejo, ao perceber o apelo que as peças ecológicas possuem, têm buscado investir na área, como Renner, C&A, Zara, GAP e a Pernambucanas, que chegou a criar um “Guia de Moda e Comportamento  – Por um mundo melhor”.

No Rio Grande do sul, também há diversos profissionais e empresas focados na produção sustentável, como a Lika (moda festa com artesanato e retalhos), a Budha Khe Rhi (roupa e sapatos), a Insecta Shoes (sapatos unissex feitos com reutilização de roupas usadas e sola de borracha 100% triturada), a Louxloux e a PP Acessórios (ambas com retalhos em couro), e a Canoa (acessórios de materiais variados, como fio de borracha, câmera de bicicleta, espinha de peixe, ponteiras de guarda-chuva, crochê etc) e a Vuelo (produção artesanal de mochilas com câmeras de pneus, náilon de guarda-chuvas e outros resíduos).

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A Insecta Shoes aposta na exclusividade de modelos de botas e oxford veganos com o reaproveitamento de tecidos. Foto: Bruna Rohleder

A designer porto-alegrense, Baby Steinberg, além de desfilar coleções-conceito com vestidos de resíduos domésticos e da indústria têxtil, como fita cassete, filtro de café, máscaras cirúrgicas, sacos plásticos, fios de telefone, raio-X e até guarda-chuvas, também comercializa saias de couro ecológico (R$ 130 ), e vestidos (R$ 198) e shorts com estampa personalizada de garrafas PET.

Sustentabilidade custa caro?

Em função do investimento que alguns tipos de projeto exigem, o número de empresas de moda responsáveis é tímido. “Não há muitas dificuldades no mercado, o que nós enxergamos como principal obstáculo é o preço das matérias-primas que às vezes ainda é um pouco mais elevado, mas isso já está melhorando”, destaca Barbara Mattivy, uma das diretoras da empresa gaúcha de calçados Insecta Shoes.

As maiores dificuldades encontradas são os custos de materiais como os corantes provenientes de pigmentos naturais de plantas, cascas de árvores e raízes, o algodão orgânico, e alguns tipos de couros especiais, cujos processos tendem a imbutir um custo final excessivo ao consumidor.

Em função disso, é raro encontrar peças em 100% de algodão orgânico. Normalmente são acrescidas outras elementos à fibra. As confecções trabalham com camisetas ecológicas que empregam, por exemplo, 50% de poliéster derivado do plástico reciclado das garrafas PET. O uso deste material possui muitas vantagens, segundo a proprietária da Mr Fly, Anna Lopes, marca que produz e revende online apenas camisetas ecológicas.

“Para cada camiseta confeccionada, são duas garrafas a menos no meio ambiente, dessa forma diminuímos os resíduos, geramos empregos com as coleta das garrafas e ainda fazemos peças de qualidade. A produção da malha PET gasta menos 75% de energia e utiliza menos água para ser produzida, em comparação a malha tradicional. Logo, o custo é inferior. Além disso, é mais resistente que malha apenas de algodão”.

A desvantagem é que o preço da fibra PET ainda é superior. “E existe uma limitação nas cores disponíveis, mas acreditamos que com o aumento do consumo esse cenário irá mudar”, ressalta  Anna, da Mr. Fly. Em função disso e por não terem percebido diferencial nas vendas, a Praxis Active Sports, de Santa Maria, que chegou a produzir em 2011 uma linha de camisetas com fibras recicladas, abandonou seu uso. “Trabalhamos apenas por duas coleções. Começamos a produzir logo que lançaram esta linha de tecidos, quando o apelo ecológico estava no auge. Hoje não estamos mais produzindo por que em termos tecnológicos não existe nenhum benefício e não houve uma procura significativa por este produto”, destaca a sócio-proprietária, Márcia Lago.

Os projetos devem ser viáveis, segundo Metsavaht. “Descobrimos que tínhamos que ter os critérios próprios de sustentabilidade, porque trabalhar com algodão 100% orgânico é caríssimo, é inviável. Precisamos saber valorizar projetos que misturem o algodão”, explica o empresário.

Para Camila B. Scherer, da ESPM-Sul, além dos custos maiores, o que ainda impede o crescimento desse mercado “é a falta de cultura sobre o assunto, a insegurança de consumidores que não sabem valorizar seu estilo pessoal tornando-se vítimas de moda, e o marketing massivo do fast-fashion”.

Consumo sustentável ainda não está em alta

Quem consome produtos nessa linha faz parte de um segmento diferenciado, pessoas conscientes e que procuram produtos com valor agregado. “O público é daquele consumidor que se interessa pela sustentabilidade, que quer saber de onde veio o produto e para onde ele vai, como os jovens por exemplo. Mas o nosso alvo é a nossa geração, a geração ‘y’”, elucida a designer Camila Poeta.

As meninas dos calçados Insecta Shoes também chamam atenção para os jovens consumidores que se identificam com a estética do produto, como as estampas coloridas, ou com a ideia. “Nós temos vários clientes que são veganos e que se identificam com a questão de a marca não ter nada a ver com animais. Isso não significa que o pessoal mais velho não use, têm mães e avós, por exemplo, que usam e que e curtem a marca”, explica Debora Golden.

O supervisor da Budha Khe Ri confirma que se trata de um público segmentado. “Quando as pessoas entram na loja procurando peças de algodão, por exemplo, e acham peças feitas de bambu, acabam curtindo e compram. Até porque o Bambu é uma peça boa, evita que as pessoas suem, já que o tecido permite que o corpo respire melhor”, destaca Lucas Mello. Também pela qualidade, as ecopeças tornam-se um atrativo para os clientes. “O caimento da peça, mais bonito e melhor, agrada as pessoas, tornando-as fiéis à marca. Tem uma boa saída de vendas. De 10 mostragens das peças de bamboo, acabam saíndo oito”, complementa Lucas.

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Missão sustentável e camisetas divertidas são um dos eixos da Buda Khe Ri. Foto: Bruna Rohleder

Por desconhecer as matérias primas, o público em geral ainda hesita à compra desses itens. “Alguns clientes ficam na dúvida e levam para experimentar, mas acabam gostando e voltam na loja”. A designer Camila Poeta destaca que ainda é um público muito pequeno. “A maioria das pessoas gosta de seguir tendências”, enfatiza. Mas a área é promissora, apostam os especialistas. “Acredito que cada vez mais o ecofashion será valorizado, principalmente quanto mais evidente se faz o descaso das marcas de fast-fashion com o uso consciente dos recursos naturais e das condições de trabalho que não o escravo”, finaliza a professora Camila Scherer.

Produção: HUB CONTEÚDO – ESPM/Sul – Porto Alegre, RS
Redação: Jannine Portugal
Fotos: Bruna Rohleder
Coordenação e Edição: Profa. Daniela Aline Hinerasky