A Maratona MUDE, evento promovido pela Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados) nos dias 26 e 27 de setembro, no Barra Shopping Sul, em Porto Alegre/RS, deve ser um divisor de águas para o setor calçadista nacional. Com uma proposta inovadora, de uma batalha criativa de 24 horas entre designers, que criaram três protótipos de calçados femininos em pleno shopping, o evento é considerado o primeiro passo – de muitos – até o “nirvana” do design e da moda brasileira.

O estilista Lino Villaventura, que emprestou o seu reconhecido talento para prestar consultorias para as quatro equipes participantes durante o processo, ressalta a importância do evento para a criação de uma identidade de moda no setor calçadista. “O projeto sempre me interessou por incentivar o novo. O setor calçadista anda muito bitolado, sem identidade e tem o costume de basear suas criações no que vem de fora. A Maratona causou um movimento no sentido de mostrar o novo e o diferente. Depois desse evento, nada vai ser como antes”, avalia. 

A cultura brasileira, que segundo Villaventura não é exposta apenas através de determinados estereótipos, foi abordada pela equipe vencedora tendo Santos Dumont e seu 14-bis como inspiração. “Desde o início, eles mostraram frequência e resultados incríveis. Souberam ouvir os meus conselhos e formular uma identidade própria. Eu não estava lá para interferir na produção deles, e sim para fazer os trabalhos se sobressaírem”, conta.

Para Villaventura, que também foi um dos jurados, o quarteto vencedor, composto por Ana Sabi, Camila Puccini, Cícero Ibeiro e Vinícius Kniphoff, acatou o desafio com louvor. “Eles são destemidos e originais. Focaram em um projeto que fornece uma solução sustentável, pois no caso de ser descartado o calçado pode ser reincorporado à natureza sem causar danos. Sempre é preciso pensar nisso. Além disso, o design é impecável. Eles ousaram ao propor e concretizar o desafio de serrar madeira para compor os calçados e tirar inspiração do incrível trabalho de Dumont, que representa muito o ‘ser brasileiro’”, comenta, acrescentando que os jovens criadores ainda tiveram que lidar com dificuldades inerentes ao processo produtivo, especialmente no que diz respeito a prazos e matéria-prima.

Um dos sapatos criados pela equipe vencedora

Um dos modelos de sapatos criados pela equipe vencedora

“Pulo do gato”
Para o estilista André Pimenta, que além de ter sido um dos palestrantes foi jurado da batalha criativa, o evento teve o mérito de aproximar, ainda mais, a moda do setor calçadista. “Os assuntos já se conversam, mas não neste tipo de evento. Acho que a ideia foi um verdadeiro pulo do gato, uma iniciativa muito importante para o setor calçadista”, destaca o estilista, que se disse “surpreso” com os resultados do evento. “Achei que seria menor. Sai muito feliz e com uma bagagem de informações que eu não tinha”, afirma. Os modelos vencedores, para Hidalgo, chamaram a atenção pelo inusitado, pelo improviso e pela criatividade empregada. “Eles desenvolveram uma linha diferenciada, conceitual, e isso chamou a atenção dos jurados”, conta.

Primitivo
Para outro jurado, o estilista João Pimenta, a Maratona MUDE foi especial. ”O setor calçadista precisa de identidade própria e o encontro serviu para isso, para incentivar a criatividade”, aponta. Para o profissional, o grande destaque dos modelos vencedores foi o fator inusitado. “Com uma deficiência de matéria-prima, eles resolveram trabalhar com a madeira, abrindo um novo horizonte no que diz respeito ao uso desses materiais”, ressalta. Segundo Pimenta, o fato do calçado ter tido uma “cara primitiva” traz uma simbologia importante sobre o significado da Maratona. “Foi o primitivo que se destacou nessa primeira batalha, nesse primeiro passo de um novo modelo de criação no setor calçadista”, conclui o estilista.

ENTREVISTA

A equipe da Abicalçados também conversou com Cicero Ibeiro, um dos integrantes da equipe vencedora, formada ainda por Ana Sabi, Camila Puccini e Vinícius Kniphoff.

MUDE – Como vocês avaliam a oportunidade de participar da maratona? Fariam novamente?
Cícero Ibeiro – O processo de participar de tal evento, com a presença de renomados profissionais do setor, é extremamente gratificante. Tivemos a oportunidade de conhecer pessoas que admiramos e delas receber críticas e elogios acerca do projeto desenvolvido. Obter o feedback positivo de um trabalho, para nós designers, é a certeza de que estamos trilhando o caminho certo. Nós repetiríamos essa experiência com certeza.

MUDE – E como foi receber a mentoria do Lino?
Ibeiro – Ter Lino por perto, aconselhando e dividindo conosco experiências pessoais e profissionais, não engrandeceu apenas o nosso projeto como também a nós mesmos em diversas áreas. O apoio dado a nós por esse ícone da moda brasileira, reconhecendo nosso design e valorizando-o, não tem preço.

MUDE – Quais foram os maiores desafios durante as 24 horas?
Ibeiro – As 24 horas (risos). Desenvolver um projeto de tamanha complexidade em um curto espaço de tempo é extremamente desafiador. Além disso, todos os materiais para o processo de execução das peças era um mistério até chegarmos à Maratona MUDE. Tivemos que nos adequar aos materiais oferecidos, ao maquinário da fábrica conceito e ao ambiente de trabalho. E é isso que torna especial, poder haver inovação em qualquer nicho de pesquisa e produção principalmente em algumas situações extremas.

MUDE – Vocês desenvolveram um trabalho que, além de inovar em design, é sustentável. Fale um pouco sobre isso.
Ibeiro – Quando idealizamos um projeto em produto, devemos avaliar todo o ciclo de vida deste para encontrarmos saídas inovadoras. Em nosso projeto, pensamos na utilização de matérias-primas de origem renováveis, como o couro e a madeira, além de desenvolver estruturas de encaixe e amarrações. Substituir o uso da cola e das costuras à máquina por amarrações simples e resistentes fez com que nosso projeto pudesse ser facilmente reparado durante o uso (reparo por peça – solado, cabedal, ou cadarço), evitando o descarte completo do calçado. Além disso, com o uso desse sistema, facilitamos o processo de descarte e reciclo das matérias-primas no pós uso.

Modelo da equipe vencedora

Modelo da equipe vencedora

MUDE – O Lino contou que deu uma dica para vocês, investir o dinheiro do prêmio no em um negócio que aposta na exclusividade. Vocês vão seguir conselho dele?
Ibeiro – Acredite, estamos cheios de ideias, mas precisamos colocá-las na mesa e conversar. Não temos em mente destoar dos conselhos do Lino, que foram de grande importância para nós como profissionais. Esse projeto é fruto não apenas das nossas habilidades como designers, mas também da oportunidade que nos foi oferecida.