O objetivo da Maratona MUDE, evento promovido pela Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados) nos dias 26 e 27, no Barra Shopping Sul, em Porto Alegre/RS, foi alcançado com êxito. Foram dois dias intensos, o primeiro de batalha criativa travada no meio do Shopping e vencida pela equipe de Ana Sabi, Camila Puccini, Cícero Ibeiro e Vinícius Kniphoff, e o segundo com uma verdadeira maratona de conteúdo, que contou com oito palestras e quatro workshops.

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As primeiras 24 horas
Quando o estilista Lino Villaventura deu início à contagem regressiva de 24 horas, que era o tempo que as quatro equipes deveriam utilizar para construir três protótipos de calçados femininos, teve início um momento histórico para o setor calçadista brasileiro. No corredor do movimentado Barra Shopping Sul, onde estavam instalados quatro ateliês para a criação dos calçados, as equipes encamparam o espírito do evento. Com determinação e talento, passaram a produzir os calçados numa longa batalha de criatividade. O processo, que contou com importantes parcerias para disponibilização de materiais e maquinários, foi vencido pela equipe de Ana Sabi, fotógrafa e estudante de Design Gráfico, Camila Puccini, bacharel em Design com habilitação em Moda, Cícero Ibeiro, estudante de Artes Visuais, e Vinícius Kniphoff, Designer Visual.

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De acordo com o briefing “brasilidade”, a equipe vencedora apresentou três protótipos de calçados inspirados no primeiro avião, o 14-bis, criado pelo brasileiro Alberto Santo Dumont. “Utilizamos referências na aerodinâmica, recortes, amarrações e armações”, explicou Vinícius Kniphoff. O projeto também contou com calçado sem processos de colagem, o que permitia um reaproveitamento integral do material, de acordo com os conceitos de sustentabilidade. “Fomos a única equipe que construiu o solado na impressora 3D e o resultado foi satisfatório”, continou Kniphoff, ressaltando que a premissa foi criar diferenciais pensados para todo o ciclo do produto onde amarrações substituíram a cola. “Esperamos conseguir descolo o nosso avião”, brincou o representante da equipe vencedora da primeira Maratona MUDE.

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Além de R$ 15 mil, os vencedores ganharam bolsa integral para curso de Design do Istituto Europeo di Design (IED), a ser realizado na Abicalçados, e vales-compra de R$ 500 nas lojas GAP.

Para Lino, que emprestou seu reconhecido talento para prestar consultorias às equipes durante todo o processo, a batalha foi intensa, cansativa, mas muito gratificante. “Foi realmente uma maratona. As quatro equipes trabalharam como se trabalha no ambiente de uma indústria, com as dificuldades inerentes ao processo como pressão por prazos, falta de materiais e necessidades de improvisos”, disse o estilista, antes de anunciar os vencedores. “Faz 37 anos que trabalho no setor e o processo é justamente o visto nesta maratona. É preciso lidar com o improviso, mesmo que o produto não possa parecer improviso”. Para ele, todas as equipes são vencedoras por participarem de um momento histórico para o setor calçadista nacional. “Não quero que as outras equipes se sintam desestimuladas. Tenho certeza que elas terão um trabalho de sucesso no futuro”, concluiu.

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O presidente-executivo da Abicalçados, Heitor Klein, se disse surpreso positivamente com o sucesso do evento, com a quantidade de pessoas engajadas pela cultura do Design brasileiro, condição essencial para a competitividade num mercado cada vez mais concorrido. “No contexto atual, de concorrência com os asiáticos, não podemos mais competir no preço. É aqui que a criação de um design próprio passa a ser um diferencial importante”, discursou. O dirigente agradeceu aos parceiros e pessoas que trabalharam para tornar a Maratona MUDE uma realidade. “O êxito do projeto me comove. Fui um mero facilitador, os ‘culpados’ pelo sucesso do projeto são os gestores desta iniciativa”, destacou.

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Maratona de conteúdo
Após um dia de intensa batalha criativa, a Maratona MUDE ainda contou com um ciclo oito palestras sobre criatividade, inovação, design, sustentabilidade, tendências, entre outros temas. A programação abriu para um público de 500 pessoas, entre estudantes, profissionais ligados ao setor, jornalistas e formadores de opinião, com a palestra da diretora da Pret-a-template, Roberta Weiand. Idealizadora do Pret-a-template, Roberta articulou sobre sua experiência na grife italiana D&G e relatou o processo de criação de seu aplicativo voltado para desenho de moda.

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A segunda exposição foi da diretora de moda da WGSM, Bruna Ortega , que falou sobre tendências para as próximas temporadas. Para o inverno 2014, a profissional ressaltou as referências minimalistas, artesanais e retros.

Já os diretores de arte e criação da Vogue Brasil, Ítalo Massaru e Clayton Carneiro destacaram os processos criativos acerca do desenvolvimento da revista. Além disso, a dupla salientou a riqueza cultural do País e como a publicação tem se inserido, cada vez mais, dentro do contexto da brasilidade.

Iniciando a programação na parte da tarde, o fundador e diretor da Casa de Criadores, André Hidalgo, contou a história do projeto criado em 1997, hoje o principal lançador de estilistas para a moda brasileira.

Na sequência, o estilista João Pimenta, ressaltou seu trabalho de contrapor conceitos na moda masculina. “O nosso universo é muito pobre em materiais e por isso eu procuro criar tecidos e combinações conceituais”, disse. Para ele, a moda deve servir para criar discursos, sendo que o mais batido no seu trabalho é o contraponto masculino e feminino no que diz respeito às formas. “Algumas coleções, eu desenvolvo para criar a discussão, fomentar uma ideia, sei que não será comercialmente utilizada”, contou, acrescentando que também produz coleções comerciais. “Acredito que você pode fazer uma revolução com uma roupa”, disse.

Logo após, o diretor da Cliever 3D, Rodrigo Krug, apresentou um histórico da impressão 3D, destacando que, após 2009, as máquinas foram barateadas, consequência do fim de algumas importantes patentes internacionais em voga até então. Fundada em 2012, a Cliever produz, além das máquinas, as matérias-primas (filamentos) que as abastecem. Hoje, segundo ele, uma máquina dessas pode custar R$ 3.900, algo impensável anos atrás. “A impressora 3D vem transformando os processos tradicionais de produção, tornando-os mais exclusivos, ágeis e colaborativos”, destacou. Atualmente, as máquinas disponíveis no mercado brasileiros trabalham com polímeros e cerâmicas. “Os produtos podem ser baixados por sites específicos e impressos nas máquinas”, explicou.

Encaminhando para o final da maratona de palestras, o ativista criativo da Melissa, Edson Matsuo, palestrou sobre o case da marca para o delírio das “melisseiras” que tomaram todos os acentos do Centro de Eventos do Barra Shopping Sul. “A marca não é da Grendene, é de vocês”, introduziu a exposição. Para Matsuo, o processo criativo, para ser eficiente, deve ser realizado fora do network profissional. “Se você quer inovar, ouça coisas diferentes, assim você vai enxergar algo diferente do que o que todos no seu meio estão vendo”, destacou. O ativista criativo disse, ainda, que o design é uma ferramenta externa e interna de construção colaborativa e que deve transcender o produto. “A marca é mais do que um produto, é experiência e felicidade”, disse. 

Um bate-papo com o diretor da Acaju do Brasil e representante da marca Twins for Peace no Brasil, Dimitri Mussard, concluiu o evento com chave de ouro. O jovem empreendedor contou a história da marca francesa, que doa um par para cada vendido para crianças em situações de vulnerabilidade em países subdesenvolvidos ou em desenvolvimento. Em solo brasileiro, a parceira oficial da grife é com a Fundação Gol de Letra. O ex-jogador Raí, que preside a ONG, é também o embaixador da Twins for Peace no Brasil.

Workshops
Além da palestras, o evento contou com quatro workshops realizados em parceria com o Istituto Europeo di Design (IED). No primeiro, o cool hunter Bruno Pompeo destacou as principais tarefas na rotina de um caçador de tendências. Pompeo explicou sobre a influência dos movimentos culturais na geração de tendências de consumo e deixou claro que, além de focar na produção de moda, é necessário tentar entender a personalidade do consumidor.

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Já a especialista em marketing e varejo Katherine Sresnewsky falou sobre Marketing Aplicado à moda e frisou que o calçado brasileiro está em fase de inovação. Além disso, ela salientou que o varejo de moda é o sexto setor no ranking geral do varejo e continua em expansão.

Christian Ullmann, diretor do IED e um dos idealizadores do Acre Latex Design Lab, falou sobre a parceria com o Governo do Acre que oportunizou o projeto em conjunto com artesãos de uma comunidade na Amazônia. Além disso, Ullmann citou cases de sucesso de sinergia entre design e sustentabilidade.

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Já a estilista Meline Moumdjian compartilhou com a plateia seus anos de experiência no desenvolvimento de calçados e deu noções de Desenvolvimento de Coleção. “Quando forem produzir algo novo, o primordial é que ele tenha a aceitação do mercado, não adianta apenas desenhar para enaltecer o ego”, indicou Meline.

A Maratona MUDE foi uma realização da Abicalçados e Brazilian Footwear que teve patrocínio da Apex-Brasil, Francal Feiras e Grupo Couromoda. A parceria foi Associação Brasileira das Indústrias de Máquinas e Equipamentos para os Setores do Couro, Calçados e Afins (Abrameq), Associação Brasileira de Empresas de Componentes para Couro, Calçados e Artefatos (Assintecal), Centro das Indústrias de Curtumes do Brasil (CICB), Istituto Europeo di Design (IED) e Usefashion.