“Em sua essência transgressora/transformadora, ele surge como os movimentos que buscaram aliar estética e comportamento. Não dá pra ser superficial quando se fala de sustentabilidade associada à moda”, Jackson Araújo – jornalista, sound-stylist e consultor criativo
 
  
Coleção de eco-jóias recicladas com giz de cera de Kalina Rameiro
 
 

A frase “pensar global e agir local” nunca fez tanto sentido. O conceito, também chamado Glocal, propõe um entendimento global – no nosso caso – da moda e um resgate local de raízes, culturas, músicas e comportamentos que sirvam de ferramenta para essa mistura global-moderna e local-tradicional.

A cultura brasileira, a história dos nossos lugares, a tradição que revive através das pessoas  e das suas histórias se manifestam nas mãos especialmente dos nossos artesãos e de criadores locais. O papel dos criadores e designers é ir além: absorver e elevar técnicas e valores e readaptá-las para o mercado e para o comércio mundial. É assim que a gente cria uma cara, uma identidade, uma personalidade. É assim que viramos moda quando se fala Brasil lá fora!

BIO-Jóias da Patricia Moura de Recife: ela utiliza sisal, sementes e osso

 

Além de construir identidade, agir localmente também é um posicionamento sustentável. Valorizar matéria prima/produto/produtor local permite que além da cultura, os materiais diferentes sejam utilizados. O consumo de uma forma consciente vem daí, assim como a exploração de materiais que não agridam o meio ambiente.

Aliás, é aí que entram as ECO-Jóias que “são as jóias ecologicamente corretas. Focam na transformação de qualquer material que seria descartado em outro, aumentando assim sua  vida útil e não poluindo seu entorno”, conforme a consultora de moda e sustentabilidade do SSE, Chiara Gadaleta. Outro nome que podemos dar para as peças que tem como matéria prima materiais naturais como sementes, fibras, capim, frutos secos, conchas, ossos e madeira, é BIO-Jóias.

É com técnica e com pequisa feita com índios da região amazônica que a designer gaúcha Bruna Heemann desenvolveu para esse Outono-Inverno 2014 uma coleção que tem muito desses conceitos. Festa na Floresta se inspira no cenário paradisíaco das belezas naturais do Brasil, trazendo como tema central as florestas do nosso país. Ao mesmo tempo que trabalha as peças de forma diferenciada, Bruna aborda a importância da consciência ecológica nas áreas de produção e na reciclagem da nossa cultura.

“A magia das BIO-Jóias também está  no resgate do folclore, da cultura, história e iconografia brasileiros, o que confere a elas, uma propriedade exclusiva e muito sofisticada. É o que chamo de peças da Nova Era da Moda”, completa Chiara.

 
Peças da coleção Festa na Floresta, da gaúcha Bruna Heemann
 

Ao resgate da natureza que cada coleção ecofriendly alcança, também soma-se a beleza dos biomas brasileiros, algo que é só nosso. A coleção de Bruna Heemann, por exemplo, apresenta exclusividade nos contrastes de materiais e, através do uso de recursos renováveis, incentiva a preservação e valorização daquilo que a terra tem de mais puro e precioso, a natureza.

  Outras peças da Patricia Moura BIO-Jóias
 

Uma das marcas de acessórios mais reconhecidas do mercado eco/bio no Brasil é o de Maria Oiticica. A designer que dá nome a marca, nasceu no Amazonas, mas é carioca por paixão e convicção. Não é a toa que la foi uma das primeiras a divulgar o trabalho com a bandeira da consciência socioambiental no País e desde 2002 usa resíduos florestais nos seus trabalhos.

Em 2010 recebeu o 1° Prêmio Brasilidade Categoria Especial, dado pelo Sebrae/RJ, devido ao conjunto de sua obra. Atualmente, no Rio de Janeiro, a designer trabalha em parceria com o Projeto Novos Caminhos, criado no Instituto Fernandes Filgueira pelo Serviço de Fisioterapia Motora que visa melhorar a qualidade de vida das mães de crianças com problemas especiais como a paralisia cerebral.

Todas as peças de Oiticica são feitas com sementes, cipós, casca de árvores, folhas e frutos secos, madeiras, escamas e peles de peixes, e o acabamento é feito em prata.

A pulseira é feita de frutos lapidados de Palmeira Inajá e o colar acima é feito com flor de Babaçú e Canoinha
 
 

Peças, como a bolsa couro de peixe (abaixo), estão correndo o mundo, na FA Galery de Dubai, nos Emirados Árabes, na mostra Design Contemporâneo Brasileiro – Alegria, evento inserido no festival internacional de arte Europalia, e a exposição itinerante Jewels from Brazil, na Inglaterra e também vai participar da venda de grifes brasileiras na Macy’s, em Nova York.

 

O nível de reconhecimento de uma designer como Oiticica abre campo e espaço para novos criadores de todo o País. A nossa representante é Bruna Heemann que, da mesma forma que a designer amazonense também trabalha com materiais exclusivamente brasileiros como sementes de ouricuri, mulugu, cascalho de castanha e açaí.

A cartela de cores da coleção desse Outono-Inverno da marca gaúcha é composta por tonalidades cruas, tons terrosos como marrom, castanha e mostarda, com os toques coloridos de azul celeste, verde mar, coral, turquesa, oliva, verde folha e tons violáceos, além dos dourados, prata chumbo, preto e branco.

Absorvendo a técnica e adaptando para o mercado, a gaúcha Bruna conta com o diferencial das composições que misturam as sementes citadas acima com juta, fios de palha, pedras preciosas, cristais, correntes e metais diversos.

Confiram na galeria abaixo a campanha da marca Bruna Heemann

 

Os exemplos citados acima – representantes de criadores, artesãos e designers presentes em cada canto desse infinito Brasil – estão aqui para lembrar que a sustentabilidade faz parte de um conjunto de ações que colocadas em prática, em cada empresa, fazem ela ir muito além de ser apenas ecológica ou orgânica.

Todas as ações servem para um bem maior, que é a de humanizar mais todos os processos, inclusive o de marketing e o de venda! Isso é ser sustentável. Consumir desenfreadamente, mesmo que itens orgânicos ou feitos à mão, é desregular algo que muitos estão tentando ajustar no nosso mercado.

Para encerrar, uma frase do designer Ronaldo Fraga: “Não é um colarzinho de garrafa PET ou uma camiseta de algodão orgânico que vai salvar o mundo. Atitudes individuais que possam transformar o grupo, tem poder extremo de transformação. Outra coisa é a educação de nossas crianças neste sentido.”