Colunista do Fashion RS discute a postura da massa nas redes sociais e a forma com que ela mexe com desejo e vontades das pessoas reorganizando as estruturas mentais de imaginário e sonhos de consumo

Esse texto nasceu escrito à mão, numa tentativa de organizar os pensamentos depois de uma conversa de bar que tive com uns amigos. Merece um aprofundamento futuro.

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Voyeurismo, aceitação no grupo, para ser tem que ter. Máximas da vida hipermoderna que todos nós reproduzimos, conscientemente ou não, em maior ou menor grau. Achas que não? Então dá uma olhada na tua timeline do Instagram. Tem foto da janta maravilhosa de ontem? Da paisagem incrível do final de semana? Do sapato que te deste de presente? Pois é.

Tem algo bem errado quando nós trocamos o registrar-sensações-pra-posteridade por tentativas de mostrar o quão o que eu faço/compro/uso/vejo é muito mais legal e interessante que o teu. E isso é bem complicado, porque mexe com o desejo e as vontades das pessoas, reorganizando as estruturas mentais de imaginário e sonho de consumo.

Ok, é justamente isso que a publicidade faz diariamente: tenta criar novos hábitos de consumo. Só que nós consumidores não somos esponjas que absorvemos e compramos tudo que nos oferecem.

Almejar comprar coisas novas é ótimo, me auto-presentear porque achei que fiz por merecer é incrível. O que é péssimo e super cafona é fazer isso: tirar foto, postar nas redes sociais e buscar causar inveja nos outros.

Esse é um sintoma horrível da nossa geração: todos os nossos (bons) momentos são instantaneamente compartilhados, e temos essa pressão interna para que vivamos experiências cada vez mais legais, para mostrar pros outros que estamos vivendo de verdade. E ainda tem o FOMO – Fear of Missing Out, que basicamente é o nervosismo de não ter conexão 3G na praia pra postar a selfie com os óculos espelhados novos, ou ver o que todo mundo fez (de incrível) no sábado a noite.

Parece que não conseguimos viver. Precisamos anunciar para o mundo todo que estamos vivendo e muito bem, obrigado. Esse fenômeno não deixa de ser um sintoma do consumismo hipermoderno: trabalhei, me esforcei, comprei e agora vou mostrar pra todos que eu também posso. Satisfação mais de vontades externas que intrínsecas/verdadeiras.

Querer nem sempre é poder. Ou ainda, eu não posso, mas posso fazer com que os outros pensem que eu posso. É desse pensamento que vem as bolsas falsificadas, ou a compra daquele batom que não combina com a tua pele, mas que tá “todomundousando”. Pode não me satisfazer por completo, mas já fico um pouco mais alegre por poder postar a foto com um #lacrando (aliás, que expressão pavorosa).

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Mais amor, menos beijinho no ombro.

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