Segundo especialistas, o conservadorismo e a falta de infraestrutura deixariam a cidade atrás de outras capitais

O consumo de alto padrão nunca esteve tão aquecido no Brasil. A última edição da pesquisa O mercado de luxo no Brasil, realizada pela MCF Consultoria, em parceria com a empresa de estudos alemã GfK, mostra que o segmento cresceu 18% em 2011, faturando pouco mais de R$ 18,5 bilhões, quase o triplo do total de 2006. A mesma pesquisa, porém, também mostra que os empresários do setor consideram Porto Alegre a menos promissora das capitais pesquisadas, além de ser a última entre os objetivos de expansão das marcas. Os motivos, segundo especialistas, seriam principalmente a cultura de consumo local e a falta de empreendimentos voltados à área.

O estudo, produzido a partir de entrevistas com donos de lojas de todo o Brasil, traz o dado de que, confrontados com a questão de qual seria a cidade mais promissora do Brasil, excetuando-se Rio de Janeiro e São Paulo, Porto Alegre foi a menos citada, junto a Salvador, cada uma com 2% das opiniões. Outras capitais, como Brasília (39%), Curitiba (20%), Belo Horizonte (18%) e Recife (7%), foram as preferidas dos empresários. Um ano antes, a situação era ainda pior, com Porto Alegre recebendo apenas 1% das indicações.

Já o outro dado, mais subjetivo e com uma base muito restrita de entrevistados, diz respeito aos planos reais que as grifes mantinham de expandirem seus negócios para as cidades brasileiras no ano de 2012. Como era de se esperar, São Paulo e Rio de Janeiro, tradicionais centros do mercado de luxo, dominaram o quesito, com 65% e 62%, respectivamente. Novamente, Curitiba (27%), Brasília (23%) e Belo Horizonte (23%) ficaram à frente de Porto Alegre, presente em apenas 12% dos planos das marcas do segmento.

Isso não significa, porém, que as empresas de Porto Alegre estejam perdendo faturamento, ou que a cidade tenha ficado parada no tempo. O grande crescimento do segmento no País também ressoa aqui, embora com menos força, por diversos motivos. “São alguns fatores, como o incremento significativo da riqueza brasileira, do número de milionários no País e o surgimento de uma classe média forte, aspiracional e com desejo de consumo”, afirma o presidente da MCF e idealizador da Associação Brasileira das Empresas de Luxo (Abrael), Carlos Ferreirinha. “O brasileiro pulou de uma posição inexistente para nos últimos cinco anos estar entre os três melhores consumidores do mundo”, acrescenta a diretora da Luxo Brasil, Marinez Pretto, que desde 2009 presta serviços como planejamento, treinamentos e eventos voltados a empresas da área, que atribui isso, também, ao fato de o brasileiro ser atento e detalhista, conhecendo e valorizando a exclusividade.

Ferreirinha, que também ministra cursos e palestras de formação para profissionais da área em diversas cidades – inclusive Porto Alegre – ressalta ainda que o momento, após anos de concentração do mercado de luxo principalmente em São Paulo, é de uma forte expansão em direção ao resto do Brasil. Talvez a principal expoente do luxo no País, a loja Daslu desembarcou em Porto Alegre no último mês de setembro, por exemplo.

Porém, diferentemente dos países europeus mais tradicionais, o Brasil é continental, com características regionais muito fortes. “São Paulo é mais cosmopolita e o Rio de Janeiro tem mais presente a informalidade. Nas outras regiões, o Nordeste tem muito da excitação de consumo, do impulso, o oposto do Sul, onde o consumo é conservador, sem arroubos”, afirma Ferreirinha.

Ausência de empreendimentos ajuda a frear o luxo na Capital

Outro dos motivos apontados para que Porto Alegre não atinja o seu potencial no mercado de alto padrão – ou, pelo menos, não desperte tanto interesse quanto outras capitais – seria a falta de estabelecimentos apropriados para tal. “Aqui tudo empaca, tudo demora. Enquanto outros fazem obras e shoppings, aqui estamos há quanto tempo discutindo as obras compensatórias pra expandir o Iguatemi, por exemplo?”, afirma Suzana Tonin, diretora da operação gaúcha da alta joalheria carioca Sara.

Para os empresários, Porto Alegre fica para trás até dentro da própria Região Sul, onde, atualmente, a capital paranaense é a predileta do mercado de luxo. “Curitiba lançou um empreendimento comercial pautado para o segmento, o Shopping Pátio Batel, o primeiro da Região Sul construído do zero para receber marcas de luxo. Com isso, Curitiba tem hoje uma dianteira no Sul”, argumenta Carlos Ferreirinha. “Nosso Estado está ficando pra trás. O gaúcho que vai a Curitiba e se depara com o Pátio Batel puxa os cabelos de inveja”, complementa Suzana.

Serviço qualificado influencia na decisão de compra

No último mês de fevereiro, o filósofo Gilles Lipovetsky, um dos principais pensadores sobre o mercado de alto padrão no mundo, defendeu, em palestra em Porto Alegre, que o luxo está em transformação. Cada vez mais, não seriam os produtos em si ou a ostentação representada por eles que os clientes buscariam, mas, sim, experiências únicas e personalizadas. “Esse novo momento é delicado porque trata-se de pessoas e não de coisas”, afirma Marinez Pretto, gestora da Luxo Brasil, que trouxe Lipovestky à Capital.

Para atender aos novos anseios dos clientes, Marinez defende que o que falta, ainda, é profissionalismo. “As empresas internacionais olham o mercado em médio e longo prazo, já as brasileiras em curto. Essa é uma das nossas grandes diferenças”, afirma. “E também o cliente da classe C, por exemplo, sempre sonhou em ter algum produto diferenciado, mas isso tudo é novo para ele. Ao entrar em uma loja ‘premium’,  se sente constrangido, pois o fornecedor não está preparado e não conhece esse novo cliente”, continua.

Simone Gobbi, diretora da loja de móveis de alto padrão Gobbi Novelle, atua no segmento em Porto Alegre há 15 anos, mas já convive no meio há mais tempo – sua família produzia os carros esportivos Miura desde a década de 1970. Para a empresária, embora o público gaúcho seja realmente mais conservador no consumo, é o cuidado justamente em transmitir a ele uma experiência diferenciada que pode convencê-lo na hora da compra. “Cada vez mais, para vender um produto de luxo, não basta apenas expor na loja, sozinho ele não vai se vender. Não vendemos produtos, mas trazemos ao cliente uma experiência”, concorda.

Para isso, Simone defende que um dos principais focos das lojas devem ser os colaboradores. “Esse colaborador precisa trabalhar com paixão, emoção e, principalmente, com conhecimento sobre os produtos, pois precisam ser muito bem apresentados”, afirma a empresária, que investe em formações e cursos para seus funcionários.

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